CONTOS DA TAVERNA I – La revoluzione

8 dez

Depois de alguns meses de manutenção mental, volto pra tentar dizer meia dúzia de trambelhos. Talvez mais.

“Tudo está muito normal. Tudo está muito controlado.” disse um amigo meu fazem alguns dias. Talvez esse seja o problema, eu estar me sentindo “normalizado”. Nem sei mais direito o que movimentava a minha ira e minha ironia para assuntos futebolísticos. Especulo que seja a mesma coisa da teoria de criar um antídoto, ou seja, vir do próprio veneno. Daí tu sente-se bombardeado pelo mesmo veneno que lhe faz mal (e bem), (???), e o mal se vai. E com ele mais um monte de coisas, como a magia, alegria e a fé cega (se é que existe outro tipo de fé).

João Havelange estava certo em dizer que se fosse implementado chips e câmeras para deixar o futebol mais preciso e menos suscetível a erro de arbitragem, o desporto perderia toda sua graça e poesia. Mas e daí? O que o ladrão faz para não ser mais preso? Ou se mata, ou vira polícia ou se canditada. É mais ou menos assim que carruagem anda.
O velho Havelange no melhor estilo mafioso palermitano, fica no poder até apodrecer os dentes para em seu “pré-morten” dizer que pede as contas devido a N investigações sobre corrupção e outras coisas mais difíceis de explicar. Mas isso não faz diferença nenhuma. Nenhum ator da Globo juntou os amiguinhos e fez videozinho explicando o que esse velho fez. Nenhum aluno da Unicamp reuniu palavras de referencia e disse o que deveria ser feito. Por que? Porque eu sempre estive errado. Futebol não é esporte. É religião e ponto final. O povo quer ele para acreditar em alguma coisa. Em alguma coisa que funciona sem “o povo” ter de se esforçar. Não precisa ouvir sermão de padre ou pastor. O dízimo é intangível, mas sim, mensurável. Horas e mais horas de TV ligada. O povo não vai em estádio, ou no templo, no caso. O povo quer só se sentir vitorioso. O povo é Corinthians. O povo é Flamengo. O povo é Lula. O povo é uma presidente fazendo de um governo um clube da Luluzinha que escuta Le Tigre e Cássia Eller. O povo está sob controle. Em resumo das letras miúdas: Mano Menezes agradeceu aos céus pelo Corinthians ter levado o caneco. Assim o povo se ocupa um tempo e ele tem uma sobrevida. Pois enquanto um milagre é aclamado, um diabo é renomado.

Cada vez mais que eu viajo, eu quero viajar mais. Isto parece uma frase bem óbvia, mas meus motivos são um pouco alterados. Quero tentar provar que não estou com razão. Que o mundo tem alguma solução.
Volto pro Brasil e vejo um dos times do povo sagrar-se campeão. Se roubou ou não, isso não importa, pois o roubo não é mais no apito, aliás, faz tempo que este não influencia. É mais fácil dar suprimento para um time ser melhor e maior que o outro do que tentar burlar a regra durante o combate, certo?

Bem, voltando ao mundo que ainda quero conhecer. O país que melhor conheço (se não o que mais conheço) a não ser o Brasil, é a Itália. Com este pensamento, inicio uma série de posts que acredito que conseguirei concluir até o final do ano. Já que são muitos os assuntos que me incomodam, dedicarei um por vez depois de uma introdução um tanto quanto turva. Ou seja, caro amigo, se veio a passeio, vá ler a coluna do Neto!

Falava da Itália. Minha percepção social foi mais ou menos esculpida na Itália. Não faz muito tempo isso. Faz bem pouco. Esta percepção foi sendo moldada a cada ida na terra da bota e da bosta, pois era minha forma de ver um “outro esquema”, ou um “ver de fora”, e por alguns momentos, ver perto demais.

Muitos dos meus amigos já conhecem esta história. Fatalmente será repetitivo, porém válido. Não quero bancar o Roberto Saviano que se meteu no meio da máfia para deflagrar os absurdos que acontecem no país dele. Eu sinceramente sempre soube. Acho tão inútil o seu trabalho, como se alguém entrasse no meio do mundo das favelas cariocas e depois escrevesse um livro. Ou no meio do Senado em Brasília. Pra mim já é história velha. Mas eu posso ser um louco que desconfia de todo mundo. Sei la. O caso é que crime no Brasil e crime na Itália só tem uma diferença: um é tratado no cinema ha mais de 50 anos, é pomposo e vive de uma falsa beleza, e o outro entrou no cinema ha pouco mais de dois filmes sem beleza alguma. Qual é o pior? Eu sinceramente acho que o italiano. Pelo fato de não ter cura. As pessoas sabem que acontece, já está TOTALMENTE acoplado ao sistema, sobraram poucos civis inocentes para serem presos e por fim o país está em um colapso ha muitos anos e os italianos vivem como catatônicos. Já no Brasil a coisa se dissolve mais. O território é maior e é mais difícil de quantificar, porém mais fácil de mostrar os efeitos do “com” e do “sem”. Digamos assim, depois de uma reunião, a nossa presidente Dilma Eller deu-se por conta que pra rolar a tal Copa do Mundo em seu país, uma das coisas que deveriam ser urgentemente feitas é dar uma boa limpada na tal cidade maravilhosa, e para alguns, a mais bela do mundo. Para mim, a maior fábrica de funcionários públicos do planeta. Uma limpeza maior que fizeram na ECO 92, maior do que na vinda do Papa. Arranjar serviço pra milico que tem fuzil belga encostado fabricado em 1950, fazer a polícia fluminense atirar em seus próprios sócios, fazer o Jornal Nacional ser um BOPE em tempo real e ao vivo. Mandou todos os porcos, ratos, milicos e caveiras subirem o morro e descer o chumbo. E não é pra prender ninguém, pois isso gera custos. É mais barato matar pois o caixão de tábuas de eucalipto e as horas pagas pela retro-escavadeira saem bem mais em conta.
Ou seja. Na Itália, a corrupção é acordada por todos os corruptos…entre eles está tudo a pampa. No Brasil não. Cada um rouba em sua especialidade e não tem laços diretos. Talvez se faça algum acordo, mas parou por aí.
Quem deu mais na licitação “Copa do Mundo” foi a Dilma, então não tem acordo e dono de morro que se proteja. Se é ladrão matando ladrão, não faz diferença. O resultado é “um ladrão a menos”.

Na parte alta dos anos 80, quando a Itália ganhou como país sede da Copa, ali iniciava-se o acordo e que resultou em extrema unção do país, entre governo e máfia. Perambulando pelo país, muitas vezes eu encontrei estádios “quase” acabados. E não são poucos. São construções no meio do nada, com o mato já alto, que parecem ruínas de civilizações alienígenas. Nada mais é que construções que foram além de superfaturadas, nem entregues. Planos de estádios para serem de treinamento que depois alguma equipe pequena tomaria a posse. O que nunca aconteceu. Muito, mas muito dinheiro foi desviado.
Pra quem não sabe, os anos 80 foram o BUM econômico da Itália, que um pouco antes da Copa foi o apogeu, para depois seguir em linha reta no trenzinho guiado pelo titio Berlusconi. Naqueles passados anos, a Itália era pura força e moeda forte. Era considerada a porta da Europa. Tudo andava pra lá de bem.

É por isso que eu tenho alguma esperança no país depois da Copa de 2014. Não esperança, mas eu sei que virá uma resposta depois do evento. Um ou vai ou racha. De certo modo a metodologia “Mussolini” que está sendo adotada no Rio de Janeiro me agrada, mas ao mesmo tempo um estádio em Itaquera será construído com dinheiro do povo. Mas e daí? O povo é corinthiano! E se não for…não dá nada, pois o R10 é urubu!

Voltando. Os anos 80 foram a festa de debutantes para a máfia italiana. Os anos 80 pagaram um Napoli. Os anos 80 forneceram cocaína de sobra para um jogador ser livrado do dopping em 100% das partidas que disputou em solo italiano. O único azar é que a UEFA não permitiu que este jogador atuasse “trincado” em competições européias. Daí não deu pra ganhar, óbvio. Bem, o resto é bobagem. Já disse o que queria. Mas continuarei.

Atualmente o futebol italiano é dividido por 3 equipes. Estas 3 são propriedade das coisas que mais fazem dinheiro por aquelas bandas. Uma é N empresas de porte médio, hotéis, lojas e toda a comunicação televisiva da Itália, o Milan. Na mesma cidade a outra equipe, a Internazionale, é propriedade de uma das maiores empresas de componentes de satélites do mundo, a Pirelli. Enganou-se feio quando achou que resumia-se em pneus a conhecida marca. A tal marca talvez seja também a maior no sistema de imobiliário do país. E a ultima equipe, a Juventus, é o brinquedo mais antigo da família Agnelli. Chamavam o vovô Agnelli de “naso di argento”, ou nariz de prata, para os mais íntimos. Devido a abusiva inalação de uma substância muito apreciada por um ex jogador argentino e por um atual comentarista global. Bem, estes Agnelli são proprietários da Fiat, Alfa Romeu, Lancia, New Holland, Iveco, Mopar, Maserati, Abarth, Jeep, Chrysler, Dodge, Ferrari e mais uma cacetada de empresas pesadas que não lembro agora.
Sim, sim. Outras equipes da Itália também são propriedade de gente endinherada. O Napoli é de um poderoso produtor de cinema e dono de uma empresa de água. Mas não chega ainda no nível das 3 citadas anteriormente.
No quesito tamanho de torcida na Itália, a Juventus lidera com mais da metade das percentuais, o Milan vem em segundo com pouco mais da metade da quantidade dos torcedores torineses. A Internazionale é qualquer coisa como sexto no ranking. Sei que parece que a Roma, Lazio e Napoli ganham da Inter nestes números.
Estas 3 equipes possuem cada uma o seu veículo de comunicação. Não que seja delas como propriedade, mas que fazem a informação tendenciosa para o favor de cada uma. A famosa Gazzeta dello Sport é interista, ou seja, todo acontecimento em campo ou fora dele, é a favor da Internazionale. Bem menor mas muito conhecido na Itália, o Tutto Sport é juventino. E o Milan é escamoteado, pois Silvio Berlusconi não é tão burro a ponto. Pois além de ser presidente do clube, ele é o premier do país. O premier do país é o dono da rede pública, mais conhecida como RAI, que se divide em 3 canais. Depois disso ele é o dono do Mediaset, que constitui os “outros” canais da rede aberta. Sendo assim ele tem que ser sutil no posicionamento. O mais engraçado é que no ramo futebolístico é o único lugar que ele é sutil. O resto e escancarado. Faz parecer que o povo italiano se basta apenas pelo o que acontece no futebol.
Bem, lembram-se do CalcioCaos? Ou da Calciopoli? Pois é, que envolvia Luciano Moggi da Juventus. O resultado final foram cortar a cabeça de Moggi do futebol, tirar dois títulos ganhos honestamente da Juventus e rebaixá-la para a segunda divisão. Todo esse alvoroço começou quando saiu a tona uma informação: o investimento gasto nos últimos 8 anos pela Internazionale. Era incrivelmente maior em relação ao Milan que papava tudo o quanto dava de canecos europeus e a Juventus que levava todo santo ano seu Scudetto pra casa. Esta situação de azarados ou péssimos administradores não mostrou ter solução na prática “investidor honesto”. Mesmo tendo o time mais caro, não dava resultado. Daí, a Gazzeta dello Sport começou uma série de reportagens provando que os jogadores da Juventus combinavam resultados em banco de apostas, que Moggi acertava todo o esquema inclusive com a arbitragem. Ficou minando a mídia com estas informações, sabendo que uma Copa do Mundo estava por vir (a da Alemanha, no caso), e que a cara da Federação Italiana teria de estar limpa antes do torneio.
Pelo sim ou pelo não, muitos jogadores apostavam nos jogos. Fabio Cannavaro ficou comprovado. Moggi fez fortunas com isso também. Mas isso não mudou em nada o desempenho da equipe ou dos juízes. Todos apostavam em outros jogos, de outras equipes, grana pesada, pra ganhar grana pesada, livre de impostos e bla bla bla. A multa foi dada, a Juventus se fodeo, e a Itália foi com um falsa cara limpa para o mundial. E por fim venceu ela mesma a Copa. Uma penca de jogadores do clube pediram para serem negociados, obviamente por preço de banana. Porém alguns, resolveram ficar por orgulho ao trabalho prestado. Pra quem leu o livro de Pavel Nedved, ou até mesmo o de Luciano Moggi, ou acompanhou todas as declarações dadas por Mauro Camoranesi, Giggi Buffon, Alessandro Del Piero, e até outros jogadores de outras equipes italianas, tem completa e real noção que fizeram uma mutreta para “os de sempre” pararem de ganhar. Foi uma ideia muito bem pensada da direção interista. No tempo certo, na época certa. Foi a última arma que eles tinham. E foi eficaz. Logicamente o outro rival a não ser a Juventus era o Milan. Porém, derrubar o próprio presidente da Itália não seria muito fácil. Sendo assim o Milan começaria o campeonato com um punhado de pontos negativos. Qualquer coisa como 4 ou 5 partidas não ganhas. O que faz muita diferença no final das contas.
O final das contas mesmo é que a Internazionale se peidou toda pra ganhar o Scudetto no ano posterior. Ficou escancarado gols não anulados ou no contrário, mal anulados que favoreciam a entidade nerazzurra, além de muitas penalidades marcadas baseadas nas regras do basquete. No segundo ano voltaram a se peidar, mas com um bom técnico fizeram suas maravilhas. Indo para o terceiro ano, quase todas as equipes italianas de menor porte começaram a ficar indignadas com as arbitragens que favoreciam a Inter. Fez se fumaça mas a Gazzeta dello Sport não deixou fazer fogo. O Tutto Sport começou apresentar ligações gravadas de integrantes da diretoria interista com o responsável da federação que decidia quem iria apitar cada jogo no campeonato. Ficou bem claro toda a paçoca. Ficou lógico o discurso a la Roberto Jeferson que Luciano Moggi adotou em seu livro. Ficou feio pra Inter os jogos “mal ganhos”. Continuou uma série de penalidades marcadas aos 48 do segundo tempo em prol da Inter. Daí o Moggi se proclamou pela última vez dizendo que assim que José Mourinho saísse do comando, a Internazionale poderia ser considerado uma equipe morta. Que iria morrer aos poucos, mas que continuariam os malabarismos das arbitragens. Onde o Milan não iria se posicionar como desfavorecido pois seu presidente tem ficha suja em outros mil lugares. O que resultou? A Internazionale penando na parte de baixo da tabela, ganhando ainda com gols ilegítimos.
A falta de força política juventina e a conivência do Milan as barbadas interistas, impedem a equipe neroazzurra de sofrer qualquer penalidade. O resto é o resto.

Eu ainda gosto do AC Milan. O Silvio Berlusconi é uma pessoa que eu admiro. Sim, admiro. Pois ele é presidente de um país onde ele lava todo seu dinheiro, dono de toda comunicação, tem acordo “brizolista” com a máfia (quem não sabe o que significa ser brizolista com uma instituição criminosa, por favor, vá estudar história), continuando, não nega pra ninguém que faz festas regadas com putas de todo o planeta, é viciado em Viagra, todos os velinhos e a igreja gostam dele, e os que não gostam dele reclamam, mas não fazem nada. É como se o Lalau fosse o presidente do Brasil por 30 anos a fio. É ridículo, mas é genialmente fantástico.
Como presidente do AC Milan o que eu posso dizer é que o titio Silvio é um astuto administrador. Nunca perdeu um centavo com qualquer contratação, pelo contrário, só ganhou. Viveu pegando restos de outros times ou jogadores que ainda não foram descobertos. Lembrando que abaixo do brasão do clube tem uma escrita: “IL club più titolato nel mondo”. Se você não entendeu, googleia, mané!
Todo mundo fala do R10 que não rendeu nada. Em campo não rendeu um cacete. Mas em venda de camiseta, em aumento de sócios na Indochina quando ele foi contratado, em arrecadação na pré-temporada, no aumento de receita publicitária que o clube ganhou depois que R10 fez um gol no Derby della Madonnina…iiii….o dentuço só deu lucro, e quando parou de dar, um abraço e boa sorte. Outros exemplos…Seedorf e Pirlo terem vindo de graça. Eles não foram vendidos, mas renderam muitos títulos. Kaká comprado a preço de galinha de granja e vendido como carne de faisão. Pato, que por mais que seja um reserva de luxo ou um titular inconstante, foi comprado por baixo preço em relação ao seu valor atual. Ibrahimovic ser comprado pela metade do seu valor. Cassano ter vindo de graça. E agora Kaká tendo a possibilidade de vir pela metade do preço de valorização atual, e não de valor de última venda. Acho que o último investimento “considerado caro” que Silvio fez foi a compra de Rui Manuel Cesar Costa, que já se pagou ha muito tempo. E a pior compra foi Digão. Mas sobre o Digão eu falo outro dia. É um cara bem legal. Mesmo. Mas já estou na quinta página e este post se transformou em uma fecundação, um ou quase nenhum espermatozóide chega no final.

Uma resposta para “CONTOS DA TAVERNA I – La revoluzione”

  1. Rodrigo dezembro 13, 2011 às 6:12 am #

    porra, já estava com saudades desses textos.

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